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A outra sombra

Para ser franca, eu não estava animada com esta viagem, mesmo sendo somente por três dias. Relutante, acabei embarcando para o que se saiu melhor do que o esperado com hospedagem confortável, acolhimento e passeios por cachoeiras incríveis. Ao retornar, um simpático goiano que estava hospedado no hostel fala comigo como se já me conhecesse há algum tempo: “conheci tua amiga na parada de ônibus...”. Me apresentei e perguntei o seu nome, e depois recordei de quando ele havia feito o checkin. A conversa continuou, e pedi as características da amiga. Depois do desenrolar da história e dele ter dado o perfil da moça, lhe falei que ela não era minha amiga e que nunca tínhamos nos falado, e que me surpreendia o fato dela saber tanto de mim. Surpreso e confuso ficou o rapaz, depois falamos sobre o seu próximo passeio. Pronta para dormir, deitada, ri sozinha. Já havia bloqueado a suposta “amiga” na rede social onde mais posto stories do cotidiano. Até me perguntei como ela sabia o...

Numa outra dimensão

O tempo passa diferente no Local. Parece que foi ontem que cheguei por debaixo de chuva, mas muitas semanas já passaram. O engraçado é que cada semana ganhou um nome, Tati, Yoichi Machino, Lino, Nico, Karen. Uma semana de amizade, vivendo como amigos há uma eternidade. A comunicação se desenrola diferente por aqui, numa simples frase você usa inglês, francês e “portunhol”. Tem japonês fluindo no francês e alemão que ama português. Por falar em idioma, a nossa língua é considerada a mais difícil pelos gringos. E eu pensando que fosse o mandarin! As pessoas se vestem diferente também, há simplicidade e leveza. O acessório indispensável é uma mochila nas costas. Nela carregam o necessário para viverem os longos dias longe de casa, porém com espaço ainda para muitas lembranças. O que me encanta é que este lugar junta gente do mundo todo. Uma fashionista francesa, um economista austríaco, um bancário brasileiro, um físico espanhol, um assistencialista japonês, uma advogada bra...

Quando ela partiu

O dia da partida dela estava próximo, e eu sentia um aperto no peito. O esforço para não demonstrar minha ansiedade era do tamanho do medo de ficar só, ou seja, era um oceano. Uma hora ou outra, eu fazia perguntas a respeito de algum detalhe da viagem, coisas bobas. Dava pra perceber que ela não estava segura em nos deixar. Desde que nossa mãe morreu, ela tomou pra si a responsabilidade de se preocupar com o nosso bem estar, pensando bem, com a nossa existência! Na verdade, como nossa irmã mais velha ela esteve conosco sempre, nos carregou no colo e nos alimentou. Na sua companhia, fiz passeios à tarde, assisti desenhos dos anos 1990, patinei com sacolas nos pés pelo assoalho de madeira da antiga casa e chorei no seu colo quando me achei feia. Mesmo que depois da nossa grande perda ela tenha se vestido de força e dito “eu cuido de vocês”, era sofrido vê-la afundar mais uma vez naquele poço sem fundo. Os dois anos de dedicação eram suficientes para ver o quanto nos amava e...

Infância

Era feita de madeira, pequena e pintada de branco com janelas cor de vinho, por um tempo se tornou minha segunda casa. As flores nos recepcionavam na entrada e o calor humano nos abraçava de modo acolhedor, uma simples igrejinha. Todo fim de semana tinha junta panela na casa de algum amigo ou no zoobotânico – meu lugar preferido.  O sábado à tarde era assim, feito de almoço perto de guaxinim, macacos, aves e corridas pelo zoo. Tudo já era familiar, conhecia cada detalhe daquele lugar. Aguardava ansiosa por esse dia, até que todos cresceram...

Visita inesperada

Justo no momento do sono mais pesado, ela acorda sobressaltada com a exclamação “tem um homem!”. Parecia mais um urro do que propriamente um grito. Era 2h30, madrugada de domingo, sua mãe avisa que alguém havia entrado na casa. Desnorteada, seu primeiro pensamento foi questionar a segurança, pois dormiam apenas três mulheres e uma criança. Tudo pareceu ocorrer rápido, hora antes havia acordado e viu que sua irmã deixou a luz da cozinha ligada. O sono era inquieto, não havia sonho, apenas agonia. Seus olhos pesavam forçosamente. Sua mãe gesticulava de olhos arregalados diante das suas crias, pois acordou com o ladrão perto dela, imagina só! Com o susto, o estômago doía, e essa dor persistiu até ao amanhecer. Nervosa, deu por falta do celular e todas perceberam que o visitante havia enchido os bolsos com todos os aparelhos. Todas ficaram gratas pela vida. Depois do episódio, se acalmou aninhada à sua mãe na rede. Foi tentar descansar na cama, no entanto, qualquer barulho a ...

Insônia

É madrugada, apenas o ronco do meu irmão e o barulho do ventilador disputam a minha companhia. Já passa das 02h, rolo sem sono na minha cama quentinha.  Com insônia acesso a página do Facebook e aguardo abrir o meu perfil. Inúmeras notificações, solitações e mensagens para serem conferidas. É nesse ambiente virtual que me transponho para um mundo onde posso ser o que e u quiser. Porém, me limito em dois papéis: uma hora leitora e em outra hora, escritora.  O enredo mais parece com o romance 1844 de George Orwell. Apenas não sinto cheiro de Gim e cigarros baratos racionados pela polícia, mas percebo que estou sendo observada. O que posto pode até não ser curtido, comentado ou compartilhado, mas é lido em algum lugar. Que olhos me veem, ou melhor, me leem agora? Não sei dizer, mas posso afirmar que faço o mesmo.

Leite de amendoim

"O cheiro é um teletransporte da memória", é uma frase impressa no muro branco da rodovia JK. Meu olfato não contradiz, me faz ser engolida pelas lembranças em segundos. Hoje por exemplo, fiz leite de amendoim com cacau, mas tinha que escolher entre coar ou não, sempre gosto com resíduo. Mas aí vieram aquelas ordens de mãe dizendo para eu passar no crivo, assim o fiz!  Engoli o meu leite de amendoim junto com a emoção. Realmente, aquela frase no muro tem toda razão.