Eu já faço parte daqui
Pelas ruas poeirentas de Antula, alguém grita meu nome: “ELLE! Kuma ku bu sta?!”.
A frase já não me causa mais estranhamento pela falta de um “oi” antes. O que sinto agora é outra coisa, uma normalidade que ganhei com o tempo, e da qual gosto.
Do outro lado da rua respondo alto com algumas das saudações que aprendi, de acordo com o momento do dia, para fazer uma boa mantenha e receber o afago de quem me aceita em sua comunidade.
É nesses instantes simples que sinto: eu pertenço.
Já faz seis meses que pertenço a Bissau ou talvez seja Bissau que já pertença um pouco a mim.
Aqui não sou tratada apenas como “mais uma estrangeira”, como aconteceu quando estive na Europa. Claro, são contextos diferentes. Mas não foi o documento de residente que me fez sentir assim. Foi o acolhimento deles.
Foi caminhar entre os nativos como se eu fosse uma guineense da etnia Bijagó que saiu da sua ilha para viver na capital.
Minhas vivências já não são como as de uma turista que viaja pelo consumo de experiências.
Me misturo entre os locais no toca-toca todos os dias.Compro no caótico Bandim e em outros mercados frequentados por eles.Treino na academia. Pego táxi como qualquer um.
Outro dia, um passageiro comentou que eu tinha aprendido o dialeto local só para pedir desconto. Respondi imediatamente: “claro”. O carro inteiro caiu na risada.
Mas quando algum motorista tenta me cobrar mais caro só porque sou “branco”, fico indignada, penso alto:
— Como assim? Eu já faço parte daqui!
Você não imagina como gosto de entrar no Darling ou no National Cash e poder falar português, crioulo e francês com os atendentes senegaleses. Ou caminhar pelas ruas, alguém me lançar um “Hello” e eu responder em inglês.
Adoro essa diversidade. Adoro poder aprender e praticar tantos idiomas.
Mas nem sempre foi assim.
Quando cheguei, não tive exatamente uma lua de mel com o país. Meus dois primeiros meses foram desafiadores e cansativos por várias razões. Era um novo contexto cultural, muitos estímulos ao mesmo tempo e ainda a minha condição neurofisiológica incompatível com o lugar por causa da SDRC.
Com quatro meses aqui, decidi fazer um movimento interno, olhar para o copo cheio.
E isso deixou a vida mais leve.
Outro dia, Marcelino, o atendente do mercado onde sempre vou, me perguntou se Guiné-Bissau é sabi. Respondi que não.
Depois fiquei pensando melhor.
Talvez Guiné Bissau não seja um lugar fácil de viver, de acordo com a referência que tenho. Mas a minha vida aqui é muito boa e foi onde deixei de ser estrangeira.
E passar esse tempo em Bissau me fez perceber o quanto sempre fui abençoada, mesmo quando enfrentava dificuldades tchiu no meu país e me sentia azarada.
Mas há algo que aprecio profundamente como moradora daqui, é passar tempo com os meus novos amigos.
Aí sim… i sabi!
Eu os amo muito. E sou muito amada por eles.
Nunca me senti sozinha aqui.
Antes, sem imaginar a mudança que aconteceria dentro de mim, pensava em emendar outro projeto missionário assim que terminasse meu contrato em Bissau. Eu sei que aguento até dois anos longe dos meus irmãos e do meu sobrinho.
Mas com o casamento da minha irmã, devo retornar ao Brasil.
E agora penso que, se não fosse por isso, talvez eu ficasse mais um bocadinho neste lugar, só por pertencer a um povo que me acolheu e me entregou tanto.
Embora eu tenha que partir, sei que um dia todos nós faremos parte do Reino do Pai.
Porque, no fim das contas, pertencer nunca foi sobre o lugar, sempre foi sobre o amor que nos recebe.
E como dizem os meus irmãos guineenses:
“Deus i garandi.”
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