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Eu já faço parte daqui

Pelas ruas poeirentas de Antula, alguém grita meu nome: “ELLE! Kuma ku bu sta?!”. A frase já não me causa mais estranhamento pela falta de um “oi” antes. O que sinto agora é outra coisa, uma normalidade que ganhei com o tempo, e da qual gosto. Do outro lado da rua respondo alto com algumas das saudações que aprendi, de acordo com o momento do dia, para fazer uma boa mantenha e receber o afago de quem me aceita em sua comunidade. É nesses instantes simples que sinto: eu pertenço. Já faz seis meses que pertenço a Bissau ou talvez seja Bissau que já pertença um pouco a mim. Aqui não sou tratada apenas como “mais uma estrangeira”, como aconteceu quando estive na Europa. Claro, são contextos diferentes. Mas não foi o documento de residente que me fez sentir assim. Foi o acolhimento deles. Foi caminhar entre os nativos como se eu fosse uma guineense da etnia Bijagó que saiu da sua ilha para viver na capital. Minhas vivências já não são como as de uma turista que viaja pelo consumo de experiê...

O bilhete

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  Nem acredito que sou aquela garota que escreveu "A bagagem está pronta, só falta comprar o bilhete", e isso em dezembro de 2022. A menina que queria conhecer o mundo, mas que precisou permanecer no mesmo lugar para poder se encontrar. Claro que sempre viajei, mas muito pelo Pará e Amazonas. E só em 2022 que fui além do meu Norte.  Ao revisitar uma crônica antiga impregnada de anseio, me surpreendi ao lembrar que já tenho os bilhetes guardados como souvenirs. Pois quem nunca aprendeu a partir, quis visitar vários países e colecionar memórias que alimentam a alma.  Há um ano, cheia de medo, com a pergunta dita pela minha irmã na cabeça, "se não for agora, quando?", atravessei o oceano. Mas levei um tombo em Lisboa que me trouxe de volta para casa, onde precisei de cirurgia. Muitas línguas repetiram que foi livramento. Acredito. Até porque sei que nada é por acaso.  Após doze meses de reabilitação e tratamento das sequelas, escrevo de onde nunca imaginei estar, num t...

Só um lembrete: Do ordinário ao extraordinário

 Não espere algo grandioso acontecer, se você esquece dos detalhes. Pra ver acontecer o extraordinário, é preciso viver os momentos ordinários. O caminho é sempre inverso, é o primeiro passo que te leva ao destino escolhido e não o contrário.  O resultado final é só a motivação, pois o que te leva ao prêmio é o passo a passo. Uma simples atitude pode ser a chave para abrir a porta da sonhada oportunidade ou para algo incrível que você nem imagina.  Pequenas coisas tecem o teu caminho, tenha consciência disso. Um novo idioma, uma alimentação mais saudável, um hobby, um novo curso ou livro. Não pense que não vai resultar. Pois vai!  Mesmo com desânimo ou com medo, comece.  Logo vai ver o resultado!

A bagagem está pronta

O caminho. No meus 20 anos, pensava que se podia traçar a vida toda numa agenda. Já estava tudo certo, me formaria em jornalismo e depois partiria pra Belém. Trabalharia na mídia da associação Adventista no Pará, em seguida iria para a TV Novo Tempo, em São Paulo. O namorado daquela época já estava avisado. A formatura chegou, menos a viagem. Os currículos começaram a se multiplicar assim como os NÃOs por alguns motivos; imaturidade, não era flexível com o sábado, assédio, jovem demais, não tem indicação...  Não viajei. Não me mudei.  Até ontem me perguntava o porquê de não ter ido. Precisava de muito dinheiro? Não podia deixar a família? Não tinha lugar pra ficar? A verdade, é que já estava adoecida algum tempo e tudo foi piorando depois do término da faculdade. O corpo, a mente, a autoestima, a relação com o namorado, o casamento da mãe, o espiritual, o anseio pelo amor do pai, a ausência de acolhimento e pertencimento estavam acumulados. No lugar do sonho, fez morada o medo...

Motorista sincero

 Ele me pegou na Av. Independência às 8h09 da noite. Na conversa disse que estava com 31 anos, era casado e tinha uma filha. Me perguntou de onde eu vinha e o motivo da viagem. Também quis saber se eu era crente, e afirmou que até o próprio Iπi=igo é, se crê em Cristo. "É muito difícil ser cristão, saca?!". Concordei. Tem muito cristão embecado e de bíblia debaixo do braço que não sabe ser gentil, educado, amoroso, bondoso, generoso, empático assim como Jesus.  Disse pra mim que conhecia o submundo e que já tinha visto de tudo. "Eu cresci no Jurunas!". Comentei que eu também havia crescido em área de risco social. Várias vezes repetiu que era difícil ser cristão, mas sua conversa era cheia de referências bíblicas e anseio. Perguntei se ele havia frequentado a igreja alguma vez, afirmou que sim. E relembrou com saudades dessa época. "Não é fácil, a gente precisa de dinheiro, já fiz tantas coisas!". Enfatizei que Cristo não se importava com o passado dele, ...

Infância colorida

Hoje está uma manhã fresca. Desceu a ladeira de braços abertos como um aviãozinho. O sobrinho atrás passou devagarzinho debaixo da robusta mangueira. Me sinto relaxado aqui! Ela saltitou para ver o coco que parecia manga grande. Voltou para o rumo de antes. Está uma bela manhã, os passarinhos cantam... Não vejo pássaros, tia! Tu tens que ouvir, presta atenção que estão cantando agora e as flores enfeitam as calçadas. Abriu os braços. Rodopiou. O sobrinho constrangido sussurrou para alguém imaginário “minha tia está muito animada!”. Mas ele não sabia que ela só queria colorir a sua infância.  *uma memória de hoje pra se guardar aqui.

É ela, Gabriela!

 Hoje, encontrei Gabriela, a menina dos pés descalços, protagonista de uma das minhas crônicas favoritas. Enquanto esperava o bus para ir ao trabalho, passou por mim cantarolando e conversando com sua bebê deitada no carrinho. Desta vez não quis evitá-la como fiz com alguns rostos na mesma semana quando estava num dia ruim. Não me contive, a chamei pelo nome e a relembrei do tempo que a conhecemos e onde morávamos.  Rever Gabriela foi nostálgico. Era como se mamãe estivesse viva e eu pudesse ouvi-la responder pra menina que sempre pedia pão ou R$ 1,00 para comprar mortadela, vestida apenas com short e sujeira.  Dez anos se passaram, diante de mim estava a personagem de "Gabriela, quem é ela?", agora mulher, mãe aos 20 anos, com a fala tão adulta. Esta cena me fez revisitar diálogos engraçados entre ela e mamãe. Enterneceu meu coração.  Espero que Gabriela esteja e seja feliz. Que no seu presente ande sempre calçada por algum sonho. 

Melhores viagens

 Acho que as melhores viagens sempre são sobre pessoas, e não sobre lugares. Foi o que pensei na primeira vez que viajei além do Norte. Não que eu nunca tenha viajado antes, mas é que eu sempre ía para os mesmos lugares.  Desde a adolescência, a minha ideia de vida adulta perfeita era viajar e investir na educação. Vieram as crises de ansiedade, o medo, a depressão e adiei esta vontade que sempre tive de conhecer pessoas e lugares. Vivi alguns anos pensando que precisava de muito para fazer acontecer. Era coragem que eu precisava. De cura. A jornada interna foi longa. Mas agora tô aqui.  E fui parar num lugar que nunca passou pela minha cabeça visitar. Até porque não sou fã de praias. Mas Recife e Olinda é um rolê mais cultural. Foi com a fala da voluntária Caiana no hostel que enxerguei uma Recife cheia de identidade. E o povo?! Ah, mas que delícia falar com as pessoas de sotaque cantado e de gestos cordiais. Cada final de fala deles, eu repetia. Pra ouvir a mesma sonor...

Descoberta

 Enquanto lia, deitada na cama. Ele tocava ao lado, sentado à frente do computador. Quando o visitava, passávamos horas assim. Ele estudava para passar no ENEM durante o dia, mas todas as noites, às 20h, e no sábado à tarde e domingo, ouvia música e se agarrava ao seu violão. Cantava e tocava com paixão. Seu repertório era vasto, com mais de 49 músicas memorizadas.  Uma vez, lancei um olhar na sua direção. Como era lindo contemplar uma pessoa apaixonada pelo que fazia. Não era só o apego pelo objeto que o acompanhava desde a Argentina por quase uma década. Suas histórias antigas da vida boêmia. Suas horas gastas na frente do Ableton Live criando batidas. Era seu entusiasmo que me encantava. Um homem de muitas camadas. Talentoso na cozinha. Com uma memória de elefante e conversas incomuns. Criador de logos minimalistas. Ovolactovegetariano como eu. Enjoado pra caramba. Mas que ninguém precisava perguntar qual era o seu sonho. Pois ele era músico sem plateia com algumas letras r...

Nunca é tarde

Nunca é tarde. Mesmo que os anos tenham passado. Mesmo que seus neurônios estejam preguiçosos. Mesmo que se considere lento para um novo aprendizado. Sim, eu falo com você. Se não começar como vai aprender?  Quando criança eu queria cantar, mas era desafinada. Entrei no conjunto infantil Arco Íris dirigido pela Eva que pacientemente nos acompanhava. Foram anos ensaiando com ela, dos 8 aos 13 anos, quando as becas nos serviam no meio das canelas. Depois veio o Sal da Terra para os teens, Unicanto para os jovens até chegar no famoso coral de adultos.  Não tinha dinheiro para pagar o curso de técnica vocal, mas durante anos ensaiei com eles e em casa nos playbacks da vida. Ainda sou desafinada, porém, bem menos. Lá atrás quando aprendia a cantar, existia a vontade também de tocar. Era apaixonada pelo Violino. Que beleza melancólica. Fui para uma seleção na única escola de música da cidade, mas era muito concorrido e entrava quem tinha indicação. Eu não tinha ninguém para ser o "p...

Sábado

Sábado.  Quando chega deixo todas as preocupações diárias. Paro as atividades do cotidiano, para fazer outras mais especiais. Descanso o corpo, a mente e a alma. É um refrigério que encontro toda semana. E recebo como um presente. É o melhor dia da semana pra mim.  Ao sol se pôr na sexta-feira, sei que já vai começar. E junto com milhares de pessoas no mundo elevamos os pensamentos aos céus e louvamos a Deus pela sua criação e bendita esperança.  Claro que não há mais as conversas no Éden em todo fim de tarde, ao pôr do sol. Há apenas a melancolia deste encontro deixada para seus descendentes. No entanto, de maneira especial, todo sábado adoramos  exclusivamente o Criador. E relembramos que o jardim um dia será restaurado. 

Impulsionadora de sonhos

"Impulsionadora de sonhos", foi como me apresentou ao segurança da sua clínica e para a vó do filho dela. Ainda continuou "eu não teria isto aqui e vocês não estariam trabalhando comigo, se não fosse ela".  Na hora, não escutei direito ou meu ouvido demorou para processar a informação. Mas perguntei novamente (quem tem déficit de atenção sempre faz isso) como havia me chamado. Ela repetiu. Escutei com atenção desta vez. Gostei da alcunha. Já tinham me chamado de "sonhadora" ou "viaja na maionese", porém, nunca me deram esta função.  Seria este o meu propósito? Ajudar as pessoas de todas as formas, mesmo sem ter ainda recursos financeiros. Porque não investi nenhum centavo no empreendimento dela. Até gostaria!!! No entanto, como ela mesma disse, eu sempre a "joguei pra cima". Sempre acreditei na capacidade dela. Que ela poderia criar a própria franquia no ramo da podologia, ser uma grande empreendedora e ajudar a sua família. Nunca aceit...

Luz preciosa

ELLE em francês é ELA, mas em hebraico significa LUZ PRECIOSA. Um nome significa muito para a cultura oriental, diferente da nossa que escolhe porque está na moda ou soa bem. A segunda a parte do que escolhi ser chamada também quer dizer Deus é meu Juiz. Aquele que conduz. Entretanto, esqueci disso. Anos atrás senti profunda tristeza. Cheguei ao fundo do poço. Passei pelo desespero de ter que viver. Sem perspectiva, não conseguia enxergar que o melhor viria. Não entendia o processo da minha jornada. Apenas sentia muita dor, e me agarrava a ela. Hoje olho para trás e pinto os últimos 10 anos por fases para a minha melhor compreensão de todo o amadurecimento.  Vivi como Moisés num incrível deserto. Cansada das pancadas da vida, entrei numa caverna da/com depressão para desistir de tudo assim como Elias. Por sofrer com tantas dores, privações e perdas, existia cheia de receios como Jó. Temerosa, pensava sempre que algo ruim estava prestes a acontecer. Graças a Deus, tudo mudou. Des...

Criança interior

"Você sempre acorda feliz", é o que a minha irmã diz. Então perguntei "até quando estou triste?". A resposta foi "sempre, assim como é otimista".  Talvez, ela me conheça melhor do que eu mesma. Mas é que aqui dentro existe uma criança interior que nunca deixei morrer. Quem sabe seja isso. Um dia, ela falou para eu assistir a série da Anne with an "E". Porque a personagem principal era parecida comigo, no entusiasmo, na espontaneidade, na determinação, nas dores, no gosto pelas palavras. Curiosa, fui ver.  Realmente, assim como Anne adoro o som de algumas e de quem as usa com maestria, elegância e simplicidade.  Como Anne me encanto com as cores, formas e cheiros das flores, textura dos troncos, formatos das nuvens, azul do céu, imponência do sol ao nascer e se despedir, fases da lua - principalmente quando sorrir. Assim como Anne sou incoveniente com meus sonhos, com a maneira como enxergo as pessoas, as coisas. Outro dia, um rapaz para me ofende...

Desejo com intenção

Ele nem suspeitou, a única coisa dita para animar o seu dia é que passearia com a mãe. Pois na semana anterior, havia se queixado que nunca mais tinha saído com a sua pessoa favorita.  Ah, realmente se alegrou, comemorou. Então, chegou a hora do passeio. No pé, um tênis pretinho que nunca usa. Calçou sem muita reclamação. Vestiu camisa de botão e calça jeans. Tudo jeans para combinar com a ocasião. Até ofereci meu chapéu preto, mas mana dispensou. Sem graça, ela! Pegaram o Uber, e a tia ficou em casa.  No haras, Gui logo se entusiasmou pedindo permissão para ver de perto os cavalos. Na hora, um homem super simpático chegou para ajudar meu sobrinho a realizar o desejo feito com intenção. Quando percebeu o que aconteceria soltou uma risada nervosa. Mas saiu montado na Iza deixando um rastro de contentamento.  Nas voltas com o instrutor, só dava pra ouvir gostosas gargalhadas e conversas sobre Minecraft. 

Era uma viajante feliz

 "Lee McMillan, influencer conhecida por viajar o mundo em uma van, morre aos 28", este foi o título do link que vi no Twitter. Corri com os olhos pelos comentários, para entender melhor. Algumas pessoas falavam que não deveriam noticiar suicídio para não ser gatilho para muita gente. Alguém avisou que o fato era um bom exemplo para quem acha que os influencers são mais felizes, e na vida real, não são. Outra pessoa se solidarizou, "depressão é um problema seríssimo". Uma moça afirmou que realmente não sabemos o peso da cruz que muitos carregam, pois pensavam que Lee tivesse a vida perfeita por viajar o mundo e conhecer lugares surreais. Acessei o site de notícia.  Na matéria, tinha uma foto de Lee toda sorridente, como alguém feliz, sem problemas. No relato, era descrita por seus amigos como uma pessoa iluminada. Então, pensei, é isso mesmo. Quem é luz, reconhece suas sombras. Quem sorri, sabe o quanto já doeu. Quem sabe acolher, já conheceu a solidão.  Quando ado...

Floresta Encantada

Quando entrei na Floresta Encantada, pensei que encontraria um lugar misterioso com alguma energia sobrenatural. No entanto, era Agosto, a mata estava bem iluminada no período do  verão amazônico e o rio havia baixado rapidamente. As árvores mostravam suas curvas. Não havia mistério. Nem encanto. Foi o que pensei a princípio.  À medida que o tempo passava, pude sentir o quanto aquele lugar me fazia bem. Completamente desconectada do mundo. Era como se existisse somente o guia que remava, minha amiga e eu.  A canoa deslizava pela água lisinha sem nenhum sinal de correntes. Às vezes, encostávamos para admirar algumas árvores com suas formas únicas. Minha voz que desde criança tem um volume alto, que só agora sei o porquê disso, cortava o silêncio. Num instante, eu me calava para ouvir. Em outro, tagarelava com o moço sobre como ali era excelente para tirar um cochilo.  Em certo momento, ele parou a canoa num lugar mais aberto, onde me senti preenchida por uma grande se...

Sentir na pele

Se tu não falas, a pele grita.  Uma lição aprendida alguns anos atrás quando um cliente me surpreendeu. Na época, estava para completar dois anos de atendimento na loja física e redes sociais, e este homem nunca falava mais que cinco palavras comigo. O que incluíam Whey Protein, barras de proteínas e obrigado. Ele chegou próximo do fim do expediente, se aproximou de mim e olhou bem no meu rosto. Bom, foi o que pensei. Depois, invadiu meu espaço e apontou na minha mecha "sabia que tu tens Vitiligo?!". Pensei, "demorou tanto pra ter uma conversa, e já começa assim!". Então, mostrou alguns fios de cabelos brancos na parte frontal da cabeça dele e explicou que não era visível porque havia feito tratamento quando criança.  O que me fez lembrar de um rapaz que conheci na adolescência, os seus olhos e lábios sofriam com a despigmentação. Quando se estressava, notava-se vermelhidão nas áreas afetadas. As manchas brancas apareceram no rosto aos 10 anos, após o divórcio dos p...

Tilte no sobrinho

Nesta semana, meu sobrinho e eu tivemos uma DR. Ele descobriu que eu havia guardado o balde de legos dentro do baú de brinquedos. Seu olhar foi matador ao se dirigir a mim.  "Tia, por que você fez isso?" "O que eu fiz?". Agi como desentendida.  "Não é pra colocar isso aqui nesse lugar".  As mãos tensas dele desenhando no ar num vai e vêm diziam que estava nervoso.  "Mas meu amor, tem muito espaço no baú e fica melhor assim".  "Não tia, já tem lego dentro do balde, não se coloca ele dentro de outra coisa".  "Espera, como já se guarda algo dentro do balde, a gente não guarda o balde de guardar algo dentro, dentro de outra coisa. É isso?!"  "Sim, tiaaaaaa". (Então, você que me leu, entendeu? Nem eu!!!)  Fixei o olhar no rosto dele, e espoquei na risada. 

Vou te contar um segredo

Vou te contar um segredo.  Não costumo falar muito o que vai aqui dentro. Sonho, desejo, raiva, alegria, estresse, é difícil sair. Fica aqui no peito. Quem dera explodir a cada episódio. Agora, depois de tantos anos, é que coisas boas extravasam pelos olhos. Não que eu não tenha expressão. Mas desde pequena fui ensinada a reprimir "calada ainda tá errada".  Antes disso, já guardava as minhas vontades. Era cautelosa. Contida. Mascarava as expressões, gestos estabanados por ser espontânea, só pra não incomodar. Mas quem se incomodaria? Não sei. Minha mãe dizia que não deveríamos incomodar ninguém. Só hoje aprendi que isso é medo da rejeição. Algo que lido melhor. Tranquei meus fantasmas ou amarrei pontas soltas? Quando criança comia a comida mais devagar do que como hoje. Parecia sem vontade. Confesso que não gosto de comer muito, muito menos sozinha. O que mais devoro é açaí, pizza. Eu provo, e tô satisfeita. Como pra saborear. O tempero mais gostoso é a companhia de outros na...