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Motorista sincero

 Ele me pegou na Av. Independência às 8h09 da noite. Na conversa disse que estava com 31 anos, era casado e tinha uma filha. Me perguntou de onde eu vinha e o motivo da viagem. Também quis saber se eu era crente, e afirmou que até o próprio Iπi=igo é, se crê em Cristo. "É muito difícil ser cristão, saca?!". Concordei. Tem muito cristão embecado e de bíblia debaixo do braço que não sabe ser gentil, educado, amoroso, bondoso, generoso, empático assim como Jesus.  Disse pra mim que conhecia o submundo e que já tinha visto de tudo. "Eu cresci no Jurunas!". Comentei que eu também havia crescido em área de risco social. Várias vezes repetiu que era difícil ser cristão, mas sua conversa era cheia de referências bíblicas e anseio. Perguntei se ele havia frequentado a igreja alguma vez, afirmou que sim. E relembrou com saudades dessa época. "Não é fácil, a gente precisa de dinheiro, já fiz tantas coisas!". Enfatizei que Cristo não se importava com o passado dele, ...

Infância colorida

Hoje está uma manhã fresca. Desceu a ladeira de braços abertos como um aviãozinho. O sobrinho atrás passou devagarzinho debaixo da robusta mangueira. Me sinto relaxado aqui! Ela saltitou para ver o coco que parecia manga grande. Voltou para o rumo de antes. Está uma bela manhã, os passarinhos cantam... Não vejo pássaros, tia! Tu tens que ouvir, presta atenção que estão cantando agora e as flores enfeitam as calçadas. Abriu os braços. Rodopiou. O sobrinho constrangido sussurrou para alguém imaginário “minha tia está muito animada!”. Mas ele não sabia que ela só queria colorir a sua infância.  *uma memória de hoje pra se guardar aqui.

É ela, Gabriela!

 Hoje, encontrei Gabriela, a menina dos pés descalços, protagonista de uma das minhas crônicas favoritas. Enquanto esperava o bus para ir ao trabalho, passou por mim cantarolando e conversando com sua bebê deitada no carrinho. Desta vez não quis evitá-la como fiz com alguns rostos na mesma semana quando estava num dia ruim. Não me contive, a chamei pelo nome e a relembrei do tempo que a conhecemos e onde morávamos.  Rever Gabriela foi nostálgico. Era como se mamãe estivesse viva e eu pudesse ouvi-la responder pra menina que sempre pedia pão ou R$ 1,00 para comprar mortadela, vestida apenas com short e sujeira.  Dez anos se passaram, diante de mim estava a personagem de "Gabriela, quem é ela?", agora mulher, mãe aos 20 anos, com a fala tão adulta. Esta cena me fez revisitar diálogos engraçados entre ela e mamãe. Enterneceu meu coração.  Espero que Gabriela esteja e seja feliz. Que no seu presente ande sempre calçada por algum sonho. 

Melhores viagens

 Acho que as melhores viagens sempre são sobre pessoas, e não sobre lugares. Foi o que pensei na primeira vez que viajei além do Norte. Não que eu nunca tenha viajado antes, mas é que eu sempre ía para os mesmos lugares.  Desde a adolescência, a minha ideia de vida adulta perfeita era viajar e investir na educação. Vieram as crises de ansiedade, o medo, a depressão e adiei esta vontade que sempre tive de conhecer pessoas e lugares. Vivi alguns anos pensando que precisava de muito para fazer acontecer. Era coragem que eu precisava. De cura. A jornada interna foi longa. Mas agora tô aqui.  E fui parar num lugar que nunca passou pela minha cabeça visitar. Até porque não sou fã de praias. Mas Recife e Olinda é um rolê mais cultural. Foi com a fala da voluntária Caiana no hostel que enxerguei uma Recife cheia de identidade. E o povo?! Ah, mas que delícia falar com as pessoas de sotaque cantado e de gestos cordiais. Cada final de fala deles, eu repetia. Pra ouvir a mesma sonor...

Descoberta

 Enquanto lia, deitada na cama. Ele tocava ao lado, sentado à frente do computador. Quando o visitava, passávamos horas assim. Ele estudava para passar no ENEM durante o dia, mas todas as noites, às 20h, e no sábado à tarde e domingo, ouvia música e se agarrava ao seu violão. Cantava e tocava com paixão. Seu repertório era vasto, com mais de 49 músicas memorizadas.  Uma vez, lancei um olhar na sua direção. Como era lindo contemplar uma pessoa apaixonada pelo que fazia. Não era só o apego pelo objeto que o acompanhava desde a Argentina por quase uma década. Suas histórias antigas da vida boêmia. Suas horas gastas na frente do Ableton Live criando batidas. Era seu entusiasmo que me encantava. Um homem de muitas camadas. Talentoso na cozinha. Com uma memória de elefante e conversas incomuns. Criador de logos minimalistas. Ovolactovegetariano como eu. Enjoado pra caramba. Mas que ninguém precisava perguntar qual era o seu sonho. Pois ele era músico sem plateia com algumas letras r...

Nunca é tarde

Nunca é tarde. Mesmo que os anos tenham passado. Mesmo que seus neurônios estejam preguiçosos. Mesmo que se considere lento para um novo aprendizado. Sim, eu falo com você. Se não começar como vai aprender?  Quando criança eu queria cantar, mas era desafinada. Entrei no conjunto infantil Arco Íris dirigido pela Eva que pacientemente nos acompanhava. Foram anos ensaiando com ela, dos 8 aos 13 anos, quando as becas nos serviam no meio das canelas. Depois veio o Sal da Terra para os teens, Unicanto para os jovens até chegar no famoso coral de adultos.  Não tinha dinheiro para pagar o curso de técnica vocal, mas durante anos ensaiei com eles e em casa nos playbacks da vida. Ainda sou desafinada, porém, bem menos. Lá atrás quando aprendia a cantar, existia a vontade também de tocar. Era apaixonada pelo Violino. Que beleza melancólica. Fui para uma seleção na única escola de música da cidade, mas era muito concorrido e entrava quem tinha indicação. Eu não tinha ninguém para ser o "p...

Sábado

Sábado.  Quando chega deixo todas as preocupações diárias. Paro as atividades do cotidiano, para fazer outras mais especiais. Descanso o corpo, a mente e a alma. É um refrigério que encontro toda semana. E recebo como um presente. É o melhor dia da semana pra mim.  Ao sol se pôr na sexta-feira, sei que já vai começar. E junto com milhares de pessoas no mundo elevamos os pensamentos aos céus e louvamos a Deus pela sua criação e bendita esperança.  Claro que não há mais as conversas no Éden em todo fim de tarde, ao pôr do sol. Há apenas a melancolia deste encontro deixada para seus descendentes. No entanto, de maneira especial, todo sábado adoramos  exclusivamente o Criador. E relembramos que o jardim um dia será restaurado.