Postagens

Da Janela

Encabulada. Te vejo da janela. Mão suada. O coração acelera. Longe de ti, sou tagarela. Perto, sou desassuntada. Quem me dera sair da janela.

Dono da razão

Como pode o homem calar um espírito questionador?  Subjugar a alma de alguém, é direito de quem? Onde está escrito que sempre tem razão o seu senhor? O adulto diz para criança: - Eu falo, você fica calada... Não satisfeito, repreende? -Calada ainda está errada! Ela, por sua vez, no íntimo questiona. Ver que palavra e ação do outro não condiz. Mas ela não reclama. Aprende que a natureza do homem se contradiz. Registra tudo na mente. No aguardo do momento oportuno. Silencia sabiamente, pois o "dono da razão" não ficará impune. 

O beijo que não beijei

Acostumada desde criança a sempre manter os cabelos curtos, tinha o hábito de cortá-los quando estavam na altura dos ombros. Na frente de casa, morava um vizinho muito simpático e conhecido da mamy de uns tempos que não vivi, que fazia uns bicos como cabeleireiro. Então, quando era preciso solicitava dele o serviço. Era sempre o mesmo corte no ombro e em camadas. Não lembro o dia, mas teve uma vez e última que ele cortou meu cabelo. A mesma técnica, borrifava água, penteava e tesouras trabalhavam. No final, ele sempre dizia para eu fechar os olhos e acertava as pontas dos cabelos na frente e limpava a minha face. Até que nesse dia o simples ritual foi quebrado por um impulsivo gesto. Nessa hora, eu deveria estar em pé, porque recordo que me afastava para trás e ao mesmo tempo tentava empurrá-lo. Ele me segurava forte e me beijava de maneira inescrupulosa. Ninguém apareceu para flagrar aquele que me roubava mais do que um beijo. Até que consegui me afastar e ele correu. As pala...

História em Quadrinhos Dr. Doçura, por Elle Custódio e Israel Guedes.

Imagem
A História em quadrinhos do Dr. Doçura em traço estilizado japonês foi publicada na 2ª edição da Revista independente Mixtureba Comix em 2012, produzida pelo Coletivo AP Quadrinhos. Esta foi a minha segunda experiência no roteiro, e a estreia do meu amigo Israel Guedes. Ambos participamos do AP Quadrinhos que agrega mais quadrinistas com seus variados estilos. Curta aí!! ! Sinopse Rapaz presenteia sua namorada com um grande e bonito urso de pelúcia, mas algo que ele não esperava acontece. 

Gabriela, quem é ela?

Com pés descalços, pele marcada pelo sol. Anda pelas ruas do bairro do Zerão, Gabriela. Não é a personagem da literatura brasileira de Jorge Amado. Têm 11 anos, ainda é uma criança, mas tem um ofício, pedir. Às 6h30 da manhã, já bate à porta da vizinha – que alcunhou de "irmã" – sempre com a mesma frase: "Irmã dá pra senhora me arrumar um pouco de comida ou R$ 1,00 pra comprar mortadela?". Tem dia que passa mais de uma vez pra pedir, nem que seja água, às vezes acompanhada de primas bem menores, como Estéfane de 2 anos. Perde-se a conta de quantos bebês tem na sua humilde casa. A menina respeita os adultos, é curiosa e entendida das coisas. Ao encontrá-la, não mais vai vê-la só de calcinha e descalça, porque a irmã explicou que ela deve vestir roupa e usar sandálias. Agora ela anda vestida, mas os pés nem sempre estão calçados.  Outra vez, Gabriela andou pela rua às 15h, numa tarde muito ensolarada, segurando pelo cós um calção vermelho imenso que vestia, contou ...

Uma Estrela no abrigo São José

Numa tarde quente de sábado, no abrigo São José foi que conheci Estrela. Carregava rádio e colar de plástico pendurados no pescoço, e uma simpatia transbordante. Para ela foi enorme a felicidade de receber tantos jovens, pois adora uma platéia. Ao se apresentar, ela mesma diz: “Meu nome é Estrela, eu sou a estrela daqui”. Há mais de uma década mora no abrigo de idosos, “fui jogada na lixeira pela minha filha”, afirma. P ara ludibriar a dor do abandono,  a simpática senhora se encontrou na música,“cerca de 200 composições, tudo na minha cabeça”, conta vantagem. Estrela namora um senhor também morador do Abrigo, é o seu príncipe, que espera para um dia longe dali, ir morar num palácio que já está construído. Ela confidencia que a partir da meia-noite, viaja ao estrangeiro e canta para multidões. Já viajou por vários países e ganhou muito dinheiro. Cantou com pessoas famosas e foi entrevistada pelo Fantástico. Embora essas informações sejam fantasiosas, reflete o anseio po...

O vaso

Ele sempre esteve ali, naquele lugar. Durante dias, semanas e meses. Não parecia grande coisa, mas também não era pequeno. Servia para dias alegres com flores coloridas e sorrisos, dias apaixonantes com rosas vermelhas e romantismo, para dias tristes quando havia apenas o vazio ou era esquecido. Não lembro sua matéria, às vezes parecia ouro por sua nobreza, ferro por sua força, barro pela sua fragilidade. Mas lembro que não era chamativo, apesar de decorar. Sempre estava no mesmíssimo lugar. Em certos momentos, a impressão que deixava era de que havia vida nele e que nada despercebido passava. Parecia que queria mais do que guardar flores artificiais ou naturais, pois elas logo murcham e viram lembranças. Porém, não importava sua existência, era apenas um vaso.  Ninguém sabe contar, mas o vaso sumiu. Sem se despedir. Ninguém viu se quebrou, se alguém o pegou para outra finalidade. Se com dignidade deixou sua função. Agora, é percebida a sua ausência. O lugar do vaso está vazio,...